Criador e criatura – O desafio da convivência em um processo de Fusões e Aquisições

Oswaldo Scalzilli/ fevereiro 16, 2018/ Novidades/

É cada vez mais comum que empresários e empreendedores vendam participações em seus negócios para investidores, mas continuando à frente da operação como executivos. Essa decisão, em tese, pelo menos no início, é boa para os dois lados. Para os investidores, há menor risco de disruptura e melhor aproveitamento das habilidades e experiências do vendedor, as quais fizeram da empresa um sucesso até então; para o empreendedor, a entrada de um investidor traz recursos, novas ideias e, em alguns casos, sinergias e complementaridades à operação. Tudo isso com objetivo de se executar a nova visão estratégica proposta – um novo ciclo de desenvolvimento e crescimento para o futuro do negócio.

O problema é que, passada a euforia de início, a rotina, os problemas e os desafios do cotidiano empresarial começam a corroer os pilares dessa relação. Alguns desses riscos surgem já no momento do fechamento do negócio entre comprador e vendedor. Na minha visão, fundos de investimentos, principalmente, pecam quando deixam o empreendedor com baixa participação societária no negócio e com limitação excessiva de poderes. É claro que, com a entrada do investidor, muita coisa vai mudar na operação; é um novo dono à frente da empresa que quer executar a sua estratégia de expansão e um novo posicionamento de mercado. Mas, ingenuamente, quer contar com o fundador de corpo e alma – com as suas habilidades e energia para dar uma guinada nessas mudanças, ou mesmo adaptações a nova gestão. Essas mudanças, societárias, operacionais e culturais são rapidamente sentidas na rotina, em novos procedimentos, os quais estão espelhados em novos rostos atravessando os corredores da companhia. Tudo isso, aos poucos, ou mesmo em poucos meses, pode tirar a motivação do empresário-vendedor.

Não é fácil manter as paixões de outrora pelo negócio; levantar pela manhã motivado – ainda que com dinheiro no bolso – e ter de executar ações que não acredita, ou que, na melhor das hipóteses, não têm mais a sua genuína essência. Se o vendedor ainda é empreendedor nato, pior! Com recursos à disposição e fama de sucesso nos negócios, naturalmente o indivíduo olhará mais para o mercado do que para a empresa.

Como criar equilíbrio nessa relação? Como criar uma convivência saudável entre criador e criatura? Não é fácil! Se um propósito claro é o que move as empresas, e se não houver um significado maior para o vendedor estar ainda à frente do negócio, naturalmente, o conflito surgirá e o desgaste com os compradores será uma questão de tempo. A responsabilidade negocial é de ambos quando o casamento está para ser selado. Afinidade de ideias e objetivos, clareza na visão estratégica e recompensas claras são fundamentais para uma relação harmoniosa e de sucesso no futuro!

Fabricio Nedel Scalzilli
Toro Partners